Luiz Paulo fala do destombamento do prédio da Brahma

Saiu no Jornal O Globo, uma reportagem sobre o novo prédio com arquitetura assinada por Niemeyer, no lugar do prédio da Brahma na rua Marques de Sapucaí. Em seu expediente inicial, o deputado Luiz Paulo relembrou que até o ano passado, o local era tombado, logo, não poderia ser demolido. Veio para a Alerj um projeto (atendendo a um pedido do prefeito Eduardo Paes) para que o prédio fosse destombado. Luiz Paulo se mostrou indignado, votou contra, mas a base do governo venceu. O prédio foi destombado e demolido. A compensação disso foi o comprometimento de ampliar as arquibancadas do Sambódromo, visando sempre a Copa 2014 e as Olimpíadas de 2016. Para o deputado, todas as obras que o prefeito deseja fazer tem essa motivação.

Ele ainda salientou que a Alerj não tem o poder de tombar, mas teve para destombar. Até aquela época não havia uma explicação factível. Vendo a notícia, ficou claro que a explicação foi a especulação imobiliária.

Veja abaixo a íntegra do discurso:

“Sr. Presidente, José Luiz Nanci, Sras. e Srs. Deputados, venho falar hoje sobre a matéria do jornal O Globo publicada nesta quinta-feira: “No lugar da fábrica da Brahma, prédio de Niemeyer”. Subtítulo: “Arquiteto faz projeto de imóvel de – 19 andares – vizinho ao Sambódromo, que deverá ficar pronto em julho de 2004”.

Antes de continuar a leitura da matéria, Sr. Presidente, V.Exa. poderia me perguntar: mas por que o senhor está chamando atenção sobre essa questão? Porque, no ano passado, esta Casa votou o destombamento do prédio da Brahma. Eu fui um daqueles parlamentares que se indignaram com o destombamento. Primeiro, por julgá-lo inconstitucional, porque se não temos o poder de tombar, também não teríamos o poder de destombar, mesmo que o tombamento tivesse vindo de uma lei anterior. Segundo, destombar por quê? Não havia nenhuma explicação factível! Por que vou destombar um imóvel que eu julgava que tinha valor histórico? A troco de quê?

Depois de muito cogitarmos hipóteses – jamais estaria eu a afirmar que era por causa da especulação imobiliária – foi dito aqui por um Deputado da base do governo, salvo melhor juízo, pelo Deputado André Corrêa, que estava atendendo a um pedido do prefeito Eduardo Paes, para que a Brahma ali erigisse outro imóvel, dando como compensação a ampliação das arquibancadas do Sambódromo, viabilizando-o para os eventos de Copa do Mundo e Olimpíada. Copa do Mundo e Olimpíada constituem cobertor curto para qualquer coisa! Foi essa a justificativa que não acatamos, porque se o prefeito tem interesse num destombamento, que seja votado nesta Casa, ele teria obrigação de oficiar ao Presidente da Casa o porquê do destombamento.

Para variar, Sr. Presidente, fomos voto vencido. Perdemos na votação e o prédio foi destombado. Meses depois, com grande repercussão jornalística, o prédio da Brahma foi implodido com muito sucesso, mas com muita tristeza para aqueles que prezam o patrimônio histórico.

Aí, me pronunciei mostrando que devia ter alguma coisa maior atrás disso. E, hoje, o jornal estampa a foto de um prédio moderníssimo que será construído com 19 pavimentos – 19 pavimentos! Eram cinco, vão aditar 14 pavimentos e com uma área construída de 135 mil metros quadrados, representando um investimento, só nas benfeitorias, de R$ 550 milhões – R$ 550 milhões!

Então, esta Casa, sem saber, de anjinho, propiciou esse investimento. Mas, sob protestos, sem discutir o mérito não é possível que tomemos uma decisão sem conhecer o fato que está atrás da decisão.

(…)

Pode ser esse nome. Mas o que eu quero chamar a atenção é que um prédio, pela descrição da matéria, de última geração, e que fazendo umas contas, dividindo R$ 550 milhões por 135 mil metros quadrados, nós temos R$ 4.074,00 por metro quadrado. O que mostra que é um prédio de um padrão altíssimo.

Estou registrando, porque o Deputado Paulo Ramos, ainda há pouco, que me antecedeu, fez uma porção de contas sobre outro prédio de 41 mil metros quadrados. Este novo vai custar R$ 4.000,00 o metro quadrado. É um registro que devemos fazer.

Quero mostrar aqui, Sr. Presidente, a minha indignação. A questão é: será que aquela localidade, aquela ruazinha que dava acesso para a Brahma, ninguém sabe o nome dela, mas é Comandante Mauriti, será que aquela região em torno do Sambódromo precisava ser revitalizada? Porque a matéria aqui fala em diversos outros imóveis. Esta é uma discussão de mérito. Possivelmente, sim. Que aquela é uma região da cidade totalmente abandonada, é verdade. Que só tinha vida no Carnaval, também é verdade. Não é questão do mérito se deve ou não deve construir um prédio. O que não pode, Sr. Presidente, é o Parlamento fluminense aprovar um projeto sem saber o que está por trás. O que me deixa indignado é que eu sabia que isso ia acontecer; tomei minha posição na sensibilidade de que haveria um empreendimento imobiliário atrás disso, mas jamais imaginei que tivesse essa dimensão. Não é todo dia que se constroem prédios de 135mil m² na Cidade do Rio de Janeiro. Recentemente, surgiu grande polêmica em relação ao prédio da Bolsa de São Paulo, sem querer também entrar no mérito, que tem 41mil m². Sinta, Sr. Presidente, a dimensão desse empreendimento aqui no Rio de Janeiro.

A Alerj destombou o prédio da Brahma, a Câmara de Vereadores liberou o gabarito e ali nascerá um marco histórico da arquitetura, cujo projeto é assinado por um homem que, em geral, não projeta prédios privados – o desenho portentoso de Oscar Niemeyer. A história vai marcar que liberamos o prédio da Brahma sem saber o que iria acontecer depois – mas não foi por falta de aviso. Exercemos aqui – não somente eu, mas também outros parlamentares – o direito, como diz a base do governo, de espernear. Mas, como sempre a base coloca para votar e vence, e nós ficamos esperneando. Um dia a sociedade seguramente estará do nosso lado. Espero que não tarde muito.

Muito obrigado.”