O melhor investimento é transformar o trem em metrô de superfície

Depois das análises das áreas de Segurança Pública, Educação e Saúde do Governo Cabral, onde sua atuação foi profundamente precária, principalmente na Saúde e na Educação, vamos fazer uma análise da área dos Transportes Públicos. O transporte público do Estado do Rio de Janeiro está sob a égide das concessões; cada uma das áreas é concedida a um ente privado. É assim com os ônibus, com as barcas, com o metrô e com os trens.

O Estado do Rio de Janeiro tem uma Agência Reguladora, que é a Agência de Transportes, que deveria ser a zelosa vigia dos contratos de concessão para regular as relações entre o poder concedente, a concessionária e o usuário. Essa Agência Reguladora tem seus diretores nomeados, que deveriam ser só diretores com capacidade técnica indiscutível para que ela fosse – como é o espírito da Agência – independente da concessionária, do poder concedente e até mesmo das associações de usuários. Mas, o que vimos durante três anos, foi que a Agência Reguladora de Transportes foi capturada pelas concessionárias e também pelo Governo, por via de conseqüência, não funcionou durante este período e o caos no sistema de transporte do Estado do Rio de Janeiro, principalmente na Região Metropolitana, se estabeleceu.

Se perguntarmos ao usuário das barcas se está satisfeito com o transporte de barcas, ele dirá que não; se perguntarmos ao usuário do metrô se está satisfeito, ele dirá que não; se perguntarmos ao usuário do sistema de transporte ferroviário se está satisfeito, ele dirá que não, e se perguntarmos ao usuário das diversas linhas de ônibus intermunicipais se ele está satisfeito, ele também dirá que não!

Por via de consequência, o que se depreende daí? Que o Governador abandonou o sistema de transporte quando deixou a Agência Reguladora ser um cabide político-partidário e não um ente respeitável. Somente nos últimos seis meses algumas modificações foram feitas, mas como diz o provérbio português, aí “Inês já era morta”, infelizmente.

O Secretário de Transportes levou mais de um ano para aprender o dever de casa e nunca foi prestigiado, inclusive, pelo próprio Governo, quando foi decidida a prorrogação das concessões do metrô e do trem e necessitou de um estudo de viabilidade. Eu desafio qualquer um a responder quem contratou esse estudo de viabilidade para expandir as concessões de trem e metrô por mais 25 anos? Foi a Agência Reguladora? Não. Nem sequer opinou. Foi a Secretaria de Transportes? Não, mas também não foi a Secretaria de Transportes que contratou esses estudos, foi o Secretário Chefe da Casa Civil, um Procurador do Estado, um homem das leis, mas não dos transportes. E sabe qual foi a empresa especializada, contratada para dar esses pareceres por dispensa de licitação? A briosa Fundação Getúlio Vargas, que tem especialidade em Direito, Economia e Administração, mas não tem a especialização em transportes. Em transportes tem a Coppe, tem o IME tem a PUC, tem a Uerj, mas não a Fundação Getúlio Vargas.

Na Linha 4 do Metrô foi necessário fazer um estudo de demanda e um estudo do impacto ambiental e, novamente, por dispensa de licitação, a Casa Civil voltou a contratar a Fundação Getúlio Vargas. É realmente trágico e cômico. Seria só cômico se não fosse trágico. Mas essa é a realidade. Enquanto isso, todo o sistema foi à garra. Nem o “vovô viu a uva” o Governo do Estado cumpriu, porque fizeram a gambiarra denominada Linha 1A. Gambiarra sabe o que é: é aquele rabicho elétrico que se puxa da linha principal. Fizeram uma gambiarra ligando a estação de São Cristóvão à Central do Brasil para fazer com que a Linha 1A, isto é, a linha que vem da Pavuna chegasse até Botafogo. Concomitantemente inauguraram General Osório, mas se esqueceram de que precisavam de mais trens para suportar a demanda reprimida. Mas os trens estavam encomendados; só chegam em 2011.

Enquanto isso, até 2011 a população vive no metrô igual à sardinha em lata, fora o fato de que todo dia tem um acidente em que uma composição do metrô fica paralisada, pelo menos dia sim, dia não. De que estratégia, de que planejamento, de que governo nós estamos falando? Agora mesmo, por motivos eleitorais, se começou a obra da Linha 4, da Gávea à Barra, mas sequer há o estudo de demanda da Gávea até a Praça General Osório. Até agora não se tem o estudo ambiental deste trecho. Por via de consequência, estão sucateando o sistema de transportes da nossa Região Metropolitana.

O melhor projeto de transportes que existe na Região Metropolitana é transformar o trem da Central e o trem para a Baixada Fluminense em metrô de superfície. E o que é transformar o trem em metrô de superfície? Comprar mais composições para diminuir o intervalo entre trens – todas essas composições dotadas de ar condicionado. Procurar fechar, cobrir o maior número de estações possível, para que no verão a troca de calor entre o trem e o meio ambiente não aqueça a temperatura interna dos vagões. Dar acessibilidade a essas estações, para que o deficiente e a gestante tenham facilidade de acesso. Fazer um sistema de segurança, de controle viário moderno, competente, e fazer pequenas alterações na via permanente.

Um projeto desses, que tem 250 quilômetros de trilhos implantados, via permanente constituída, sem necessidade de desapropriação, custaria no tempo cinco ou seis bilhões de reais. Eu pergunto: isso é dinheiro para quem tem um orçamento de quase 46 bilhões de reais por ano? Isso seria o investimento de melhor retorno, de melhor relação benefício-custo. Há anos luto e impulsiono essa bandeira, a de transformar o trem em metrô de superfície, e nada aconteceu. Somente agora é que o Governo do Estado vai começar a encomendar composições à China. Talvez se gaste um bilhão, mas nós precisamos gastar cinco a seis para resolver, pois não se estrutura o sistema de transportes metropolitano sem um trem eficiente, o trem que vai para Santa Cruz, o trem que vai para Japeri, o trem que vai para Saracuruna e Raiz da Serra.

Esse é o projeto que qualquer governo com o mínimo de sanidade tem que defender. Eu pergunto: quantos reais do PAC estão investidos nesse projeto? Nenhum real! E o mais grave, o custo da energia que o Governo Federal estabelece no horário de pico é o maior possível, quando a energia é a atração básica do sistema ferroviário. A energia no horário do pico devia ser mais barata, para facilitar o povo trabalhador. Não! No horário do pico é mais caro, para todo mundo economizar energia. Mas como economizar energia no transporte metro-ferroviário no horário do pico, que é quando existe a maior demanda?

Então, o transporte não é tratado a sério. O Governo Federal é omisso nesse quesito e o Governo do Estado se esconde embaixo do pano.

Não adianta o Governador dizer: “Não. Eu só estou há três anos!” Como três anos? O governo da Sra. Rosinha Garotinho era do PMDB, o governo do Sr. Garotinho também era do PMDB e, durante esses governos, o atual governador presidiu esta Casa por oito anos!

Então, todos nós, sem exceção, somos responsáveis por isso. E a nossa responsabilidade nos indica que o melhor investimento existente neste país é transformar o trem em metrô de superfície. Mas tenho esperança que essa bandeira seja assumida pela maioria dos candidatos, para termos resultado, porque, senão, Copa do Mundo, Olimpíadas não vão deixar legados importantes para nosso Estado. E a única coisa possível é ter esse investimento brutal que será feito para Copa do Mundo e Olimpíadas e termos um legado para nosso povo. E esse legado, seguramente, não é só o evento; esse legado é o investimento em infra-estrutura que o nosso País, o nosso Estado e a nossa cidade precisam.