“De dia falta água e de noite falta luz, a marchinha de 1952 continua atual”

Parece até o samba de uma nota só, mas volto a comentar a precariedade do serviço público que as concessionárias no Estado prestam. É ruim na área de energia; na área de transportes; e no fornecimento de água e tratamento do esgoto. Como na marchinha de 1952, “de dia falta água e de noite falta luz“. Isso foi em 52. Hoje, o sambista teria problema de rimar tantas mazelas: de dia falta água e luz e de noite falta água e luz - e nas horas de pico também faltam transportes: quer seja o Metrô; quer seja o trem.

É isso que se chama preparar a Cidade para a Copa do Mundo e para as Olimpíadas? Ou isso é uma estratégia para afundar a Cidade em relação aos temas tão importantes que advirão? Jamais vi, neste Estado, uma crise dos serviços públicos tão grave como a que nós estamos vivendo.

Venho de uma Audiência Pública e fiquei pasmo com as respostas que deu a Concessionária Ampla. Uma tragédia. Dizendo que a culpa disso tudo, em síntese, eram as falhas nas podas das árvores. Neste Carnaval, sequer teve ventanias, por exemplo, na região oceânica nem tampouco chuvas intensas. Quando a Audiência se iniciou eu disse que não queria justificativa, porque não havia, queria só explicações e o projeto para o futuro. Não houve explicações nem tampouco projeto para o futuro.

É bom que se diga que a Cedae está sendo castigada pelas quedas de energia tanto da Light quanto da Ampla, mas muito mais da Ampla do que da Light. A Cedae falou em volumes de investimentos fantásticos, mas quando olhamos no sistema informatizado da Alerj – SIG/Siafem –, verificamos que eles inexistem: em 2008, do total da previsão de investimentos, não atingiram 30%, e em 2009 não atingiram 5%. Esses cantados investimentos estariam ocorrendo com recursos do PAC, mas só estariam, porque na prática não estão. Aí está parte dessa tragédia.

A Light deixa muito a desejar. São sistêmicas as faltas de energia em todos os bairros da cidade, estendendo-se a alguns municípios administrados por ela na Baixada. Eu diria, que a Ampla e a Light são empresas concessionárias profundamente democráticas, porque falta energia para ricos e para pobres. A incompetência é distribuída para todos.

Pela primeira vez, em sete anos que estou neste Parlamento, a Agetransp notificou o Metrô, dando a ele 15 dias para regularizar o sistema, sob pena de a Linha 1A ser suspensa, voltando a baldeação na Estação Estácio. Depois de, em quase todos os dias, estarmos aqui criticando essa agência ineficaz, durante sete anos, tomaram uma tímida medida. Tomara que não seja para negociar! Tomara que seja verdade.

Qualquer criança sabe que a inauguração da Linha 1 - Saens Peña-General Osório - aumentou a demanda. Se não havia novos trens, como podiam colocar a Linha 1A descarregando direto na Linha 1? Qualquer criança diria: ok, vamos esperar a chegada de mais composições e depois inauguraremos a Linha 1-A. Mas isso é muito para a inteligência política, técnica e gerencial do pessoal do Metrô, da Secretaria de Estado de Transportes e da Agência Reguladora. É uma associação de incompetência - para não usarmos outro termo.

Vinha para a Assembleia ouvindo a CBN e a comentarista Lúcia Hipólito dizia que amava o Rio e queria o Rio melhor, apesar da Light, apesar da Ampla, apesar do Metrô, apesar da SuperVia, apesar da Cedae, apesar disso tudo e mais toda a insegurança.

Na verdade, estamos à beira de o Governador tomar pé dessa situação porque ainda não tomou, eu acho que ele está pairando em outro planeta, e decretar que estamos vivendo um momento de calamidade pública por ausência de gestão, por incapacidade das instituições funcionarem. E logo eu que quero sempre acreditar nas instituições. Gente, as pessoas passam, mas as instituições ficam.

Eles precisam pensar no futuro. Da Ampla, não ouvi uma palavra sobre o futuro. Parece que para a Ampla o futuro é o passado. Eu acho que a Ampla se esforça para ter um serviço público de qualidade tão ruim como tinha a ex-Cerj. Ela está querendo se igualar para pior. Mas o lucro deles foi de 200 milhões/ano. Mas ela não pode gastar por ano cinco milhões em poda de árvore, porque consideram, por incrível que pareça, que poda de árvore é investimento. Em qualquer contabilidade de custo, poda de árvore é custeio.

Dizia eu para eles que aprendi com quem cuida de manejo que os meses que não têm a letra “r” – maio, junho, julho e agosto – são os meses da poda, exatamente para não ter problema no verão. Mas nem isso eles ainda não conseguiram descobrir.

Para surpresa minha, Petrópolis foi duramente atingida. A beleza de Petrópolis é ter muito verde, mas a falta de qualidade no fornecimento de energia em Petrópolis, segundo a Ampla, é por culpa das árvores. Então a solução para Petrópolis, segundo a Ampla, é não ter mais árvores. Por que não enterrar a rede, por que não fazer rede subterrânea?

Estou perplexo. Todos nós podemos errar - e sempre erramos - todos nós podemos fazer projeções e avaliações que não correspondam à realidade. Mas fazer uma audiência pública e as empresas virem para cá sem sequer saber o que vão dizer é, no mínimo, quererem agredir a nossa inteligência.