Copa embaixo d’água: Rio não investe para se livrar de problemas com chuvas

Com grandes recursos destinados à Copa e às Olimpíadas, velhos problemas da cidade persistem

Foto: Douglas Shineidr/Jornal do Brasil

O enredo desta segunda-feira(06) é igual há décadas no Rio: se a chuva cai um pouco mais forte, a cidade fica engarrafada, vários bolsões d’água se formam e as ruas se enchem do lixo acumulado nos esgotos da cidade. E pouca coisa muda. A verba para as melhorias necessárias na cidade existe, mas as atenções estão voltadas para a Copa do Mundo e as Olimpíadas: R$ 7,8 bilhões é o total gasto no Rio de Janeiro para a reforma do Maracanã, a construção da linha 4 do metrô, a despoluição da Baía de Guanabara e as obras de preparação para os grandes eventos.

O deputado Luiz Paulo(PSDB), um dos líderes da oposição na Assembléia Legislativa do Rio de Janeiro, criticou as prioridades do Governo Estadual: “As prioridades são do interesse privado, e não o interesse público. Vem aqui a FIFA diz ser dona de todas as regras em 2014, e gasta-se quase R$ 1 bilhão em um estádio de futebol. Isso mostra que os interesses da cidade são menos importantes. A contrapartida, no entanto, para este evento em que vão ser realizados pouquíssimos jogos no Rio, é nenhuma. Não é possível governar o Rio de Janeiro sem uma política clara de habitação, uso do solo e transporte”, disparou o deputado, lembrando que uma das tragédias anuais da região serrana do Rio, no caso a de 2011, até agora não teve solução:

“Na CPI que nós fizemos, ficou muito claro que deveríamos ter construído 10 mil habitações por ano nos próximos 4 anos, e até agora não há sequer uma habitação pronta. As que passaram pela tragédia de 2011 estão vivendo ainda com o aluguel social”, lembrou o tucano.

Para a reforma do Maracanã, foram R$ 400 milhões pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Socia(BNDES), mais R$ 250 milhões pelo Corporação Andina de Fomento(CAF), mais R$ 137 milhões pela Caixa Econômica Federal, totalizando, segundo dados do Governo do Estado, R$ 787 milhões. Para a despoluição da Baía de Guanabara, mais R$ 900 milhões, cortesia do Banco Interamericano de Desenvolvimento(BID); outros R$ 4,3 bilhões para as obras de construção da Linha 4 do Metrô, vindos do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social(BNDES); Por último, o Bank of America cedeu R$ 1,5 milhão para obras para recepção de “grandes eventos” pelo Rio de Janeiro.

Cidade em questão

Vários pontos da cidade sofreram nesta segunda com as chuvas, que ainda causaram falta de luz e queda de árvores, atrapalhando o trânsito repleto de carros e ônibus. Um motorista de van morreu após ser atingido por uma grande árvore dentro do veículo na Marechal Floriano, no centro.

Agustinho Guerreiro, presidente do Conselho de Engenharia e Agronomia do Rio de Janeiro(CREA-RJ), lembrou que este problema não é nada novo, e usou a área do Maracanã e a Praça da Bandeira como exemplo do descaso que já vem de anos:

“Nós temos uma quantidade muito grande de rios, montes, montanhas e muitas bacias. Quando chove bastante, a água vem com grande velocidade, porque a vegetação que segurava um pouco o fluxo foi depauperada. A Praça da Bandeira é um exemplo e, na área do Maracanã, as soluções sempre foram quebra-galhos, embora existam vários projetos de engenheiros. Não são levados a sério os verdadeiros projetos, que impediriam o acúmulo de água”, apontou Guerreiro, dizendo que o piscinões ajudam, mas não resolvem o problema das enchentes no Maracanã recorrentes em dias de chuva.

“Normalmente os projetos que dão certo são os que canalizam as águas dessas regiões mais fundas para outras mais distantes. Lá há um projeto antigo de conduzi-las através de túneis até o costão da avenida Niemeyer, mas nunca se levou a sério, se abandonou essa ideia. Os piscinões têm limites, são receptores, recebem até um certo volume e vão extravasar se passar desse volume”, analisou o presidente do Crea, que é muito pessimista:

“Não vamos ter solução nunca para as chuvas com esse tipo de planejamento urbano. É só começarem as chuvas um pouco além do normal e um por um tempo maior que se dá o caos. Se parar de chover, sorte nossa”, disparou.

LuIz Paulo, deputado pelo PSDB, explicou que o canal da Francisco Bicalho recebe seis rios hoje em dia. Ele explica que, com a urbanização, o sistema de arrasto que funcionava nos anos 40 para escoar a água não funciona mais. “Quando a maré está alta e chove, a água não escoa para lugar nenhum. Os piscinões podem ajudar, principalmente quando não tiver alta. Essa solução de jogar no costão da Niemeyer tem mais de quarenta anos. Isso sim seria um legado para esse problema que vem desde as décadas de 20 e 30”, disse o deputado.

O trânsito como complicador

Para o presidente do CREA, há um vilão que também contribui para o caos na cidade em dias de chuva: o transporte em rodas. Para ele, apesar da “falta de alternativas de transporte público de qualidade”, é fundamental repensar a atual configuração de mobilidade de transporte no Rio de Janeiro:

“Na Europa, 70 % dos transportes é feito sobre trilhos, e o resto é em transporte sobre rodas. Aqui, a lógica é inversa e até em percentuais maiores.Quando chove, ônibus e carros param a cidade. Precisamos transformar os carros principalmente em alternativas, não em soluções para todos. Porque aí a cidade para”, criticou Guerreiro.

Um dos maiores críticos do sistema de transportes atual no Rio de Janeiro, Luiz Paulo diz que foram investidos R$ 8 bilhões para a revitalização da Linha 1, sem pensar na revitalização do transporte sobre trilhos. Segundo o deputado, todas as polêmicas envolvendo ônibus, com acidentes e mostras de mau treinamento dos motoristas, refletem as críticas à qualidade do transporte por ônibus.

“Tudo isso vem sendo criticado, e é a verdade. E onde estão os investimentos maciços naquilo que organiza a região metropolitana, que é o trem? Não há. Quando acontece, fica nos BRTs, que são ônibus articulados. E a região metropolitana continua prejudicada dessa forma. Estamos vivendo um momento em que os governantes dessa cidade, o prefeito e o governador pintam uma cidade de fantasia, definem os investimentos no supérfluo, e não no fundamental”, finalizou o tucano.

 

Fonte: JB