Tragédia na Serra faz um ano ainda com cicatrizes

A capela atingida pela chuva há um ano e em 2012 (Foto: Montagem de fotos de Celso Pupo e Thamine Leta)

Infraestruturas ainda não estão totalmente recuperadas. Segundo o governador, a reconstrução é ‘tarefa gigantesca’.

 

Nas mais tradicionais e turísticas cidades da Região Serrana do estado do Rio, a noite de 11 de janeiro do ano passado começou com chuva forte. O temporal aumentou na madrugada do dia 12, fazendo morros deslizarem, e provocando enxurradas que chegaram a uma velocidade de até 180 quilômetros por hora, segundo especialistas. Um mês depois, a região ainda contava seus mortos: 911. Mais de 400 mil moradores da região ficaram desabrigados.

A destruição ainda é visível em Nova Friburgo, um ano depois da tragédia. Um dos pontos turísticos da cidade, a Praça do Suspiro, ainda tem muita lama e pontos destruídos, como é o caso da Capela de São Antônio. O governador Sérgio Cabral disse no início do ano que a recuperação da Região Serrana ainda é uma “tarefa gigantesca” para o estado.

Cabral esteve em Friburgo para entregar viaturas para a Defesa Civil atuar no município e nas cidades de Teresópolis e Petrópolis, também na Região Serrana. O governador afirmou que uma nova catástrofe foi evitada graças ao alerta de sirene instalados em áreas de risco da cidade de Friburgo.

Em setembro, o Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro determinou que fosse implementado um plano de alerta de chuvas na serra. A Secretaria de Estado de Defesa Civil do Rio confirmou que que vai instalar 73 sirenes de alerta de chuvas em pontos críticos nos municípios de Nova Friburgo, Petrópolis e Teresópolis, mas a instalação dos equipamentos deve ser concluída apenas em março.

Soterrados em casa

Em janeiro de 2011, a avalanche de lama provocada pelas chuvas foi destruindo casas em Nova Friburgo, Teresópolis e Petrópolis, sem distinguir áreas rurais e urbanas, ricos e pobres, crianças, adultos, velhos e animais. Muita gente dormia quando, entre 3h e 4h de 12 de janeiro, suas casas desabaram sob a força das águas carregadas de terra e entulho, sem dar, para muitos, qualquer chance de fuga. Famílias inteiras morreram soterradas em suas próprias casas.

Com o deslizamentos de barreiras e morros, as galerias de águas pluviais foram totalmente obstruídas por terra trazida das encostas, entulho e lixo, o que piorou as inundações. Estradas e pontes foram destruídas e bairros inteiros ficaram isolados.

Somente na noite da quarta-feira (12) equipes de resgate começaram a chegar a algumas das áreas mais atingidas, já sem luz e sem sinal de telefonia, e encontraram destruição, morte, e moradores perambulando pelas ruas cheia de lama sem saber o que fazer – cenário de uma praça de guerra. Além de Nova Friburgo, Teresópolis e Petrópolis, os municípios de Areal, Bom Jardim, Sumidouro e São José do Vale do Rio Preto também sofreram com as chuvas de janeiro.

Em Nova Friburgo, a maior parte das vítimas morava no bairro de Conselheiro Paulino. A Clínica São Lucas (particular) foi bastante atingida pelas águas e o Hospital Municipal Raul Sertã foi totalmente inundado. O ginásio de uma escola estadual foi usado como necrotério. Mais de 800 toneladas de lixo, lama e entulho eram retiradas por dia das ruas da cidade.

Já os bairros mais afetados de Teresópolis foram Bonsucesso, Caleme e Biquinha. Também registraram vítimas Poço dos Peixes, Vale Feliz, Fazenda da Paz, Posse, Paineiras, Jardim Serrano, Parque do Imbuí, Granja Florestal e Barra do Imbuí, Pessegueiros e Salaquinho.

Vidas em jogo

A tragédia expôs dramas como os da estilista e designer Daniela Conolly, que morreu soterrada na casa onde estava hospedada em Itaipava. Morreram ainda seu pai, sua mãe, seu marido e o filho, de 2 anos; a babá; e três sobrinhos, filhos do economista Erick Conolly, seu irmão, diretor da holding do Icatu, que estava no Rio trabalhando.

Também mostrou o milagre da vida: um bebê de seis meses foi salvo dos escombros no centro de Nova Friburgo sem arranhões. O pequeno Nícolas estava vestido com apenas uma blusa e não chorou em nenhum momento.

Ou a luta de Ilair Pereira de Souza que, agarrada numa corda enquanto sua casa ruía, conseguiu sobreviver às águas que destruíam São José do Vale do Rio Preto, mas não conseguiu salvar seu cachorrinho, que tentou segurar com ela enquanto pôde.

Calamidade pública

O governador do Rio, Sérgio Cabral, declarou estado de calamidade pública nos sete municípios atingidos. O ministro da Integração Nacional, Fernando Bezerra Coelho, e a presidente Dilma Roussef visitaram a região. O vice-governador do Rio, Luiz Fernando Pezão, coordenou em campo as operações dos bombeiros e Defesa Civil.

O secretário de Estado do Ambiente, Carlos Minc, sobrevoou as áreas mais atingidas em Teresópolis e disse que o quadro era de uma “tragédia impressionante”. “Muitas pessoas morreram dormindo. As encostas estão vindo abaixo. As áreas são muito instáveis”, disse ele na época. Segundo a Empresa de Obras Públicas do estado (Emop), ocorreram mais de 770 deslizamentos de encostas.

Prejuízos na economia

A Região Serrana é o mais importante polo de produção agrícola do estado do Rio. Com a destruição, estima-se que 17 mil famílias que se sustentavam da atividade agropecuária tenham sido afetadas.

No comércio, 84% dos empresários da região foram afetados pelas chuvas de janeiro e os prejuízos estimados pela Fecomércio-RJ são de R$ 469 milhões. Na indústria, do total de 278 empresas do Sistema Firjan, 68% foram afetadas, a maioria em Nova Friburgo. Os prejuízos estimados pela Firjan foram de R$ 153 milhões.

O turismo da região foi abalado pelas chuvas de janeiro. Teresópolis, Nova Friburgo e Petrópolis teveram baixa procura para o réveillon de 2011, segundo informação da Associação Brasileira da Indústria de Hotéis do Rio de Janeiro (ABIH-RJ) divulgada em fins de dezembro.

CPI da Alerj

Pouco mais de um mês da tragédia, em fevereiro de 2011, a Assembleia Legislativa do Rio instaurou uma Comissão Parlamentar de Inquérito para apurar as responsabilidades dos órgãos públicos sobre a tragédia na Região Serrana.

Após seis meses de trabalho, o presidente da CPI, deputado Luiz Paulo (PSDB), a partir do relatório do deputado Nilton Salomão citou as principais causas da tragédia: “A falta de um plano de contenção de encostas instáveis, o abandono total da política de uso do solo, onde diplomas fajutos de posse de terra eram dados em regiões de risco, a política errada de as concessionárias ligarem água e luz em imóveis que estão em área de risco e a falta de um sistema estruturado nacional de Defesa Civil profilática, preventiva, não apenas para atender mortos e feridos. Não há definições de abrigos previamente planejados, não existiam redes de radares para dar alertas às comunidades em áreas de risco”, disse ele na época da aprovação do relatório.

A essas causas ele acrescentou a “corrupção endêmica”, que, segundo disse, teria entre outras situações permitido a ocupação irregular de áreas de risco.

O deputado destacou ainda na ocasião a solidariedade e a mobilização da população e das organizações da sociedade civil nacional e internacional, ONGs, igrejas e associações, arrecadando roupas, alimentos, medicamentos e providenciando abrigos para os desalojados. “Nos primeiros momentos da tragédia a comunidade local se mobilizou com meios próprios”, ressaltou ele.

Explicações meteorológicas

Um ano após a morte de mais de 900 pessoas vítimas das chuvas na Região Serrana, o professor Paulo Canedo, coordenador do Laboratório de Hidrologia da Cappe/UFRJ, explicou a conjunção de eventos que causou a tragédia.

Segundo lembrou, a região já registrava chuva de baixa intensidade desde o início de 2011. Com dez dias seguidos de chuva, o solo ficou encharcado. Foi quando no dia 10 de janeiro uma frente fria vinda do Sul passou por São Paulo, que ficou debaixo d’água, e chegou ao Rio e à Região Serrana, em forma de chuva forte que pegou toda a serra fluminense. A essa chuva, disse o professor, juntaram-se chuvas típicas de verão, que normalmente são como pancadas, fortes mas de curta duração.

“Essas chuvas verticais, que chamamos de chuvas de verão, têm curta duração porque se alimentam de umidade lateral. Quando a umidade é baixa, elas morrem de inanição. Mas, naquele dia, na Região Serrana, um evento aconteceu: uma ligação atmosférica entre a Região Amazônica e o Centro do Brasil levou umidade de Manaus até a Região Serrana, alimentado as chuvas que lá caíam. Isso foi um fato singular: chuva de frente fria conjugada com chuvas de verão não chega a ser raro, mas foi absolutamente incomum isso ocorrer na hora em que há uma ligação de umidade entre Sudesde e Amazônia”, contou.

O professor explicou que a chuva forte, em vez de demorar 15 minutos, demorou quatro horas e meia. “O Córrego Dantas e o Rio Santo Antonio de Pádua encheram. Nova Friburgo e Teresópolis são municípios vizinhos separados por uma cadeia de montanhas. Essa chuva forte caiu nessa cadeia de montanhas e se dividiu entre as duas cidades”, disse ele.

Chuvas em Minas

O professor Paulo Canedo explica que o que acontece no início deste ano nas regiões Norte e Noroeste do estado é consequência das chuvas no interior de Minas Gerais, que provocam as cheias na nascente do Rio Muriaé.

Com a cheia, um trecho da BR-356, em Campos, desmoronou e as águas do rio invadiram a comunidade de Três Rios, onde a água chegou a dois metros de altura. Dos quatro mil moradores, dois mil se negaram a deixar as casas e abrigaram-se nas lajes ou no segundo andar. Próximo a Três Vendas, um dique se rompeu na localidade de Outeiro, no município de Cardoso Moreira, e 900 pessoas ficaram desalojadas.

“As águas que inundaram os rios Pomba e Muriaé caem lá no interior de Minas e vêm descendo para transbordar na área plana do Norte fluminense”, explicou.

Para ele falta, planejamento nas áreas próximas às nascentes dos rios para que não transbordem e para que as águas não cheguem às áreas mais planas. Barragens são uma das soluções, diz ele.

Segundo Canedo, é costume ouvir que as chuvas a cada ano estão piores. “Não é verdade, as consequências das chuvas é que estão piores porque o uso do solo é que a cada ano está pior. Isso por causa do crescimento urbano, do crescimento populacional e da falta de planejamento das cidades. A cada ano aumentam o número de barracos e de construções em áreas de risco. Quem está pior são as pessoas e não as chuvas”, disse ele.

Apesar dessa constatação ele diz que está otimista: “Tenho a sensação que estamos virando o fio da navalha. Acho que os governantes começaram a se ligar nesse assunto. Doravante começará a ter leves melhoras no planejamento uso solo. Na Baixada Fluminense houve um avanço grande no uso do solo. Estamos apenas começando, mas, por exemplo, neste verão não tivemos qualquer acidente na Baixada e choveu forte lá”, disse ele.

 

Fonte: G1